Blog – Aline Néris

Resenha do livro Nove Noites

CARVALHO, Bernardo. Nove Noites. Companhia das Letras, 2006. 150 páginas.

A história já foi contada: o antropólogo americano Buell Quain se suicidou. Nove Noites trata, portanto e visto de certo ponto, da construção de uma narrativa e não da construção de uma história propriamente dita. Seu autor faz com que o leitor necessite estar atento a todos os detalhes narrados, uma vez que o livro consiste basicamente em fios soltos e percepções difusas que precisam ser conectados.

Bernardo Carvalho em toda sua genialidade como escritor contemporâneo cria não uma história a ser contada, mas sim a contação de uma história. Mesclando realidade e ficção ele dá luz a uma metaficção historiográfica que além de ser por si só deveras interessante, não apenas pelo seu modo de construção, faz com que o leitor mais experiente se confronte com os seus próprios limites antropológicos. Somando-se a isso ele dá vida a uma polifonia de vozes criada por (no mínimo) dois narradores: o próprio autor enquanto jornalista e um personagem tão fictício quanto real que faz parte da própria narrativa enquanto amigo do personagem central do livro.

Um artigo em um Caderno de Resenhas desperta o interesse do jornalista em relação há uma pequena menção a morte do antropólogo americano Buell Quain em terras brasileiras. Um suícidio sem maiores explicações ou sem maiores interessados que lhe desperta curiosidade. Cartas um tanto quanto misteriosas deixadas pelo suicida são, juntamente com cartas por ele enviadas e recebidas antes do ocorrido, usadas como rastro pelo narrador dos dias atuais que busca algo incerto que talvez possa ter motivado a violência cometida por esse “infeliz e tresloucado” contra si mesmo.

Logo na contra capa o leitor recebe uma advertência muito similar aquela dada pelo narrador-personagem em sua carta, neste livro ele não encontrará verdades concretas, uma vez que “Nove Noites mistura fatos (…) com as elucubrações do narrador”. A similaridade desta advertência com aquela recebida pelo destinatário das cartas do narrador-personagem a respeito da irregularidade da verdade naquele lugar onde se encontrava Buell Quain pode ser vista como mais um ponto da genialidade de Bernardo Carvalho.

Além de mais um apontamento para a genialidade do escritor é importante que isso reitere que este não é um livro tradicional (com começo, meio e fim), que ele é menos ainda um livro que traz respostas, que muito pelo contrário este livro não-linear requer do leitor uma certa habilidade de leitura e de fazer conexões a ponto de não só compreender o livro como também, se não de formular suas próprias teorias, ao menos de captar todas as insinuações e possibilidades espalhadas pelo autor por meio de seus narradores.

* Resenha escrita no primeiro semestre de 2013 para a matéria de Teoria da Literatura do curso Tradutor e Intérprete da Universidade Nove de Julho (Uninove).

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